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A tradução simultânea… explicada?

 

Opa, peraí, tradução simultânea explicada? Simples! Palestrante fala, o intérprete repete no outro idioma. Não é isso?

 

Bem, não deixa de ser isso, mas o fato é que pesquisadores do mundo inteiro vêm tentando destrinchar melhor um pouco mais esta atividade ao longo dos poucos anos que esta prática existe enquanto prática de tradução oral intermediada por aparelhos.

 

Sim, pois “interpretação” sempre existiu: gosto de imaginar mercadores antiquíssimos tentando negociar descontos através de intérpretes improvisados. Quantas guerras (ou armistícios, espero!) foram causados por uma interpretação consecutiva/intermitente ali de última hora praticada sem técnica nenhuma por uma pessoa que calhava de falar as duas línguas em questão, independentemente de nível de educação formal, etc? — Enfim, divago: estes pensamentos me divertem.

 

E não sou eu quem afirma que trata-se de um ramo jovem na pesquisa acadêmica e que há mentes inquiridoras dedicadas a formar uma compreensão sobre esta atividade tão multifacetada que é a interpretação: quem o diz é Franz Pöchhacker em seu livro “Introducing Interpreting Studies“.

 

Adoro estudar. Muitos intérpretes sentam lá e interpretam, e muito bem até, sem jamais terem lido uma linha sequer sobre modelos relativos à interpretação nem nada disso. Entretanto, compartilho uma paixãozinha nerd que cultivo desde a graduação e mestrado em filosofia: eu gosto dos porquês. O autor do livro acima mencionado diz que existem “research-minded practioneers” = eu. Pelo mero saber? Não. Porque informa minha prática. E sinto que estou apenas começando!

É possível estudar a tradução simultânea ao vivo e a cores?

 

E, nisso, eu já amei que Herr Pöchhacker deixou claro logo de saída, na introdução, o que sempre me incomoda nos estudos realizados sobre a interpretação: objetividade total é impossível. Ele declara que falará sobre sua perspectiva individual, que exclui diversos tipos de interpretação que ele possivelmente não pratica (um dia escreverei sobre isso e linkarei aqui). Isso sempre me surpreende um pouco: para criar modelos sobre a interpretação ou explicá-la, é preciso dissecá-la, separá-la em partes: ou seja, matá-la.

 

Uma interpretação viva é livre para tomar qualquer via: a do literalismo, a que prioriza o significado, a que decide entre resumir ou omitir para compensar por velocidade do discurso original… estudada, é como se fosse tirada uma fotografia deste processo, e ele deixa de ser processo. Isso me instiga e me consome. Mas… adoro!

 

Pöchhacker menciona as deficiências causadas por não ter acesso à bibliografia em idiomas que ele não domina. E tem isso, né? Quando vamos estudar interpretação, certos pares de idiomas são definidos a priori — imagino eu que de acordo com os idiomas de trabalho dos pesquisadores. Aliás, será que os pesquisadores são necessariamente intérpretes? Deveriam ser. Acho que só quem já sentou dentro de uma cabine (física ou remota) e teve que lidar com um palestrante importante falando conteúdo relevante a mil por hora deveria se atrever a tirar essa tal foto para estudo. É uma sensação sem igual: ou você surfa a onda, ou você afunda, mas o frio na barriga está sempre lá.

 

Será que já se estudou o frio na barriga?

Concessões são feitas para o estudo da tradução simultânea

 

Ainda no início da introdução do livro, Pöchhacker admite que a interpretação é um objeto de pesquisa deveras multifacetado. Ao menos este tipo de reconhecimento reconforta, viu? E afirma também que tornar o inglês a “língua franca” das pesquisas não resolve o problema complexo que envolve a diversidade terminológica e a realidade conceitual. (Quero muito saber mais sobre estes dois fatores que ele levanta!)

 

O autor diz que seguirá uma abordagem analítica, mas que luta desde o princípio contra a tentação de aceitar uma realidade “simplesmente dada”, indiscutível. Talvez o tal lance da foto? Pode ser uma forma de explicar: “olha, estarei lidando com fotos de um filme, não com o filme, ok?” Faz sentido, considerando o que Pöchhacker declara a seguir: as escolhas que o intérprete faz em nome da coerência do discurso produzido. Em bom português, é aí que a chapa esquenta!

 

Claro que não lembro de nada disso ativamente na hora de interpretar: existe um automatismo que os anos de prática trazem e, acreditem, contra o qual se pode (e às vezes, se deve!) lutar. É tão bom, tão libertador saber que, se eu estiver em condições boas (cabeça fresca, boa companhia na cabine etc), eu posso simplesmente escolher não seguir a velocidade louca de quem palestra. Fantástico, não? E a mensagem será passada, e a coerência será mantida. Aposto com você.

 

Mas a liberdade que a teoria traz é assunto para outro post. Continuarei trazendo insights do Franz Pöchhacker pois são muito enriquecedores. Nem que seja apenas para mim mesma – sabe-se lá se alguém lerá isso, hehe.

 

Fique bem. Ouça seu corpo. Respire fundo.

 

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